Caminha um pouco, olha as vitrines. Os vestidos não são mais os mesmos do tempo da minha avó, eu sei. Mas nada me impede de desejar encontrar um daqueles com gola alta, rendas no peito e nas mangas, barra até o joelho. O charme em não se deixar descobrir ao primeiro olhar, envolvimento com mistério… Isso é coisa do passado. Experimento um vestido preto, do tipo mais recatado que o século XXI pode me oferecer, e no primeiro vislumbre ao espelho eu consigo notar o desenho do meu quadril, o volume exato dos meus seios, os meus ombros brancos. Pouco? Muito? Não sei direito. Só sei que me desanima o fato de que a maioria das peças de hoje mostram de cara tudo o que se tem (visualmente) de melhor no corpo feminino. Uma lástima.
Peço meu hamburguer com batata frita e Pepsi Light. Já começo a imaginar as células de gordura se agitando dentro do meu corpo, as espinhas prestes a despontar na minha testa, a celulite quase detonando minhas coxas. O sangue se engrossando só com a aproximação do garçon com o prato cheio de gordura hidrogenada… Penso nas várias horas de ginástica puxada na academia e de como eu estaria colocando tudo pelo ralo. “Pára, garota! Pára, antes que tu não consigas nem comer o almoço”, adverte a minha consciência. É verdade que uns dias atrás eu comprei um pedaço de pizza de calabresa e acabei não comendo. Por quê? Burrice, eu diria. Mas não. São essas malditas roupas que enchem as lojas que eu mais gosto, que se tornam a maior ambição de menininhas pré-adolescentes. Não é uma paranóia, é só sobrevivência: se eu engordar muito não vou ter como me vestir sem parecer ridícula, posso morrer infartando, etc, etc. E aqueles vestidos marcam tanto a minha cintura…
Só tenho a dizer que as batatas fritas estavam deliciosas, que o hamburguer estava mais ou menos e que meu nível de endorfina aumentou quando eu terminei de comer tudo.
Caminha mais um pouco, olha mais vitrine, namora uns sapatos, e… compra um DOCE DE PELOTAS! Sim! Por que não aumentar ainda mais meu nível de endorfina? Pois bem: ele foi aumentado, com muita satisfação.
Não sei se é ignorância viver com essas paranóias de emagrecer e querer ser igual a uma capa de revista. Há coisas tão boas quanto se sentir desejada, e tem coisas que a gente pode realizar por nós mesmos a curto prazo e que valem muito mais a pena do que viver um sonho utópico. Pequenas coisas, como esse lanche hiper calórico que eu me dei o luxo de ter hoje. Eu me acho mesquinha em me preocupar tanto com a aparência externa, mas é fato o preconceito que existe contra pessoas feias ou gordas. É só olhar essas malditas vitrines. Há coleções para todos os estilos e gostos, com uma constante em comum: todas são roupas com o caimento adequado para pessoas que vestem manequim 36, não há exceções – a não ser em lojas especializadas em tamanhos especiais.
É hipocrisia condenar toda essa leva de garotinhas anorexas. A culpa não é toda delas, nem de seus pais. A culpa é nossa, a culpa é tua, a culpa é minha. Por um acaso os meninos levam Playboys com mulheres que pesam mais de 55kg para dentro do banheiro? Por acaso alguém dá bola para a gordinha nerd da turma? Por acaso existe alguma protagonista de alguma série, filme ou novela que vista manequim acima de 36? Por acaso alguém já viu os peões de uma obra assoviando para uma gordinha? Eu mesma, não consigo encontrar na mente algum ícone gordo que se seja referenciado por sua beleza.
E aí? O que faremos com nós mesmos e com todo esse lixo fast-food e esse ideal magro que jogam na nossa cabeça a torto e a direito? Esses extremos não vivem bem juntos, estaríamos inaugurando o newbarroco life style? Coma McDonalds e tenha o corpo da Jane Fonda?
Francamente. Às vezes eu me envergonho de mim mesma e dos meus colegas de espécie.
Tenham um bom fim de semana.
obs: O hormônio endorfina é o responsável pelo nosso estado de felicidade.