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pequeno conto sem finalidade nem lição de moral

Janeiro 4, 2008 · 3 Comentários

 

Meus sonhos bizarros

Eu estava aqui olhando uns arquivos de revisão do Ensino Médio, pois vou fazer a primeira prova para a Federal amanhã, e eis que encontro uns textos um tanto sobrios que eu havia escrito em meados dos meus quatorze anos. Não lembrava de ter uma mente tão sedenta de sangue e tão má e doentia.

Já não me sobra um pingo de satisfação pela minha sede pelo macabro, apesar de eu continuar fã inflexível do Tim Burton e seus amiguinhos. Separei 3 textos e deletei outros 5, cujo conteúdo eu quero esquecer que escrevi. Era de uma época de sonhos sangrentos, que se repetiu ano passado – mas da última vez eu tive o tato de guardar os sonhos para mim e para mais ninguém.

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Meu nome é Lyra. Lyra Black. Antigamente me chamavam de outro jeito, mas algumas coisas me fizeram esquecer deste vergonhoso passado. Alguns dizem que meu nome não passa de uma lenda, outros esperam meu retorno, e ainda há os que acham que eu morri e ressuscitarei. Bem, de fato esses são os que mais se aproximam da verdade. Naturalmente que nunca ressuscitarei, pois da morte ninguém levanta, e é certo que jamais irei andar sob a luz do sol. Muitos especulam sobre meu possível fim, mas a verdade é que todos que tentaram dar cabo em mim jazem na eterna escuridão do nunca amanhecer.

Minha história começa no frio de uma noite sem estrelas. Era eu não mais que uma garota prestes a completar a maioridade, cheia de indagações sobre a vida e com uma trilha extensa de sonhos maravilhosos por realizar, como qualquer outra da minha idade. Sempre radiante cheia de amigos, sem antecedentes duvidosos, nenhum indício de vícios ou mesmo participações em atos sádicos. Vivia como a filha de um promotor público viúvo. Mas algo nessa noite mudaria minha vida para sempre. Ou, melhor dizendo, eu nunca mais teria uma vida. Pelo menos não como o resto das pessoas. E eu nunca quis ser parte do resto mesmo. Eu andava devagar em direção ao prédio que dividia com meu pai, numa rua próxima ao centro da cidade, estava voltando de uma festa que acabara mais cedo que o previsto. Estranhei o silêncio anormal àquela hora da noite, mas mesmo assim segui firme em direção a porta de ferro do prédio. Entrei, as luzes estavam apagadas e tentei acende-las, mas não consegui. Houve uma queda de luz, pensei. Subi os três lances de escada e cheguei à porta de madeira lustrosa do apartamento. Logo veio o primeiro susto. Uma marca de garras emoldurava a maçaneta da porta e um leve ruído soava do lado de dentro, acompanhado de uma respiração ofegante. Pensei em chamar alguém, mas algo me fez mudar de idéia no momento que abria a boca para gritar e encarava o corredor deserto, sem o menor sinal de alguém além de mim. Girei a maçaneta e abri a porta devagar. Um ar sinistro emanava da sala de estar. Entrei aos poucos, procurando fazer silêncio, nem bem sabia o porquê. Tive de conter um grito de terror ao contemplar o corpo sem vida de meu pai atirado no tapete importado, que era o orgulho dele. Seus olhos estavam vidrados, num último gesto de súplica. Estava branco como papel, e eu também devia estar, visto meu susto. Aproximei-me para tocar o corpo gelado, ainda não sabia por que continuava lá dentro – era uma estranha sensação, eu estava agindo diferente do que sabia que agiria normalmente.

Foi exatamente nesse segundo que senti uma mão fria encostar-se ao meu ombro. A última coisa de que lembro depois disto foi uma voz rouca murmurando “O que temos aqui? Uma bela presa…”. E logo após outra voz, esta em um tom mais autoritário, mas não menos pavoroso, dizendo “Não, Queol. Guarde-a.”

Acordei deitada numa pedra. Parecia ter passado dias que eu não usava minhas pernas, mas acabei conseguindo me levantar. Era uma sala circular e escura, sem alguma janela, somente um toco de vela iluminando as paredes escuras. Aos poucos fui me lembrando dos últimos acontecimentos e comecei a gritar. Nesse momento a porta se abriu e uma figura pálida entrou no aposento. Era um homem. Seu cabelo loiro tinha um corte curto e reto, os olhos de um azul claro, quase angelical. As roupas pretas faziam transparecer em dobras um corpo robusto e ligeiramente mais alto que eu. Ele se adiantou e eu emudeci de repente. Ele tocou de leve meus cabelos escuros, espalhados pelas costas, e percorreu com os dedos a extensão de um de meus braços. Agarrou minha mão e, num gesto cavalheiresco, beijo-a.

-Sou Amadan Monserrat – e retornando da reverência, encarando firme o fundo castanho dos meus olhos, pronunciou: – Quer ser minha criança?

Eu não tinha consciência do que estava acontecendo nem do que estava para acontecer. Mas repentinamente compreendi. É impressionante a nossa capacidade para assimilar as coisas quando o alarme que indica “perigo” dentro de nós soa. E rapidamente cheguei a mais simples conclusão: ou eu concordava em ser a “criança”, fosse isso o que fosse, ou não sairia dali viva. Aquelas límpidas órbitas num rosto tão agradável não me enganavam. Algo me dizia que algo grandioso estava prestes a começar.

Sem pensar muito mais, assenti com a cabeça.

Monserrat sorriu serenamente, mostrando os dentes brancos, como um pai sorriria para um filho que aceita dar continuidade a uma tradição familiar. Então subitamente ele me puxou para si, dando-me um abraço forte, aproximando sua pele da minha, numa urgência carnal. Senti seus dedos gelados tocarem meu pescoço afastando fios do meu cabelo, e, sem demora, cravou dois caninos em uma das veias por onde corria meu sangue.

Quando percebi aquilo, tentei me desvencilhar, mas foi em vão. Amadan era muito mais forte que eu. Bebeu meu sangue em pouco tempo, e eu fui me sentindo cada vez mais fraca. Percebi a vida me deixando aos poucos, me preparava para o suspiro final, onde finalmente pudesse encontrar a paz tão desejada pelos mortais. Mas a paz demorava a vir, e aquele processo lento de deixar a vida se ir era cada vez mais doloroso. Virei para o lado e senti Amadan me tocar. Não prestei atenção a sua expressão, somente lancei meus lábios em direção a um corte profundo no braço de meu agressor. Uma necessidade infinita de sugar a essência do que dava vida aquele corpo errante tomou conta de mim. Bebi cada gota que pude do liquido rubro e delicioso que saia daquele corte, como se fosse a última coisa que faria na condição de humana. E de fato foi.

Em menos de um mês eu estava pronta. Amadan se orgulhava de mim como sua cria, e eu me vangloriava de ter sido tão sagaz no inicio. Mas ressentia-me de não poder participar do círculo ativo do clã ainda. Para mim era injustiça, uma veia malkaviana pulsante em meu peito desacordado, uma alma cigana escondida pelos panos ventruescos da minha face e que me inquietava toda a noite quando via-os sair para suas pequenas festas no covil.

Mas minha agitada vida de trevas estava a ponto de começar.

 

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