Sexta pela manhã os três mosqueteiros partiram para seu objetivo inicial. Fomos de ônibus do bairro Bela Vista até o Morumbi. Grande observação para o fato de termos ido ao supermercado 24h – o Extra -, cheios de vontade de comprar coisas para enfrentar o longo dia, e descobrimos que ele estava fechado para balanço (outras versões falam que a desculpa foi “o sistema caiu“). Ficamos com cara de whatahell mas seguimos bravamente até a fila para o show munidos apenas com a roupa do corpo, a carteira, o ingresso, e nossos fieis calçados.
Chegamos lá e caminhamos muitos muitos metros ao longo da fila em que deveríamos ficar, a do portão 2. Multidão, só isso define aquilo. Depois de muito reconhecimento de campo, passamos no teste de localização e encontramos o final da fila. Ali tinha um soldado do interior de São Paulo, o Lincoln, que havia vindo sozinho para lá, com a cara e a coragem, e uma mochila cheia de suprimentos que nos apeteceram imediatamente (bolachas, sanduíches, e até um bolo de chocolate). Frente à tamanha bravura, logo incorporamos o colega em nossa mini-comitiva. Ao perceber que estávamos preocupados com o esquecimento do protetor solar – eram 10h da manhã, o sol estava à pino, e teríamos que torrar ali parados por mais 7 horas no mínimo – o cara literalmente salvou nossa pele sacando trocentas embalagens de amostras grátis de protetor solar da Avon de dentro da sua mochila mágica. Eu sabia que aquele soldado era de fé, rá.
Sabe, fiquei muito tempo pensando sobre como aquelas quase oito horas de fila passaram tão rápido pela gente. Mas comecei a lembrar e me toquei que a gente fez tanta coisa nesse tempo que parece que poderia ter até sido mais e não seria menos suportável. Foi uma fila feliz. Comprei uma bandeira da turnê e usamos-a de cobertura contra o sol, depois eu a usei exclusivamente como bandana gigante, depois o Douglas usou como saiote (não pergunte), e por fim eu a utilizei como abrigo contra o frio na hora que a chuva nos
banhou. Também achamos que o Bruno tinha sido abduzido quando ele saiu para buscar comida para o nosso grupo almoçar e demorou mais de uma hora para voltar. Pelo menos ele caçou uns bons Subways e a gente aguentou com aquilo no estômago até a hora de entrar no estádio. Torramos muito no sol, minha tatuagem sombreada ganhou cor, ficou um vermelho degradê. Minha pressão despencava o tempo inteiro, eu ia para sombra, tomava água, ia para o sol de novo e aguentava mais uns 40min até a pressão baixar outra vez. Caos, caos, mas ainda sim era um caos muito empolgante.
Os portões abririam as 16h, e acredito que devam ter aberto mesmo. Nós entramos por volta das 17h30/18h, bem na hora em que estávamos todos tremendo no vento e com os dedos roxos, morrendo de frio devido à chuva que despencou na nossa cabeça ali pelas 16h e pouco. Chuva não né, tempestade. Com direito a trovão e tudo. A revista na porta do estádio era feita pela própria polícia, e era bem demorada. Eu não sei qual das duas situações foi a mais cômica: eu na entrada entregando meu ingresso e meu comprovante de matrícula completamente enxarcados, quase nem dava para abri-los, e convencendo a mulher a me deixar entrar; eu perdendo um pedaço do meu ingresso na metade do caminho da entrada até a revista, e
correndo de volta para juntar no chão a parte que se separou, sambando ao correr naquele chão molhado; ou a policial da revista que pegou meus chocolates derretidos e apertou para ver se tinha algum objeto cortante ali dentro (!!) e acabou fazendo o chocolate escorrer para fora, sujando sua mão.
Entrei no estádio com os guris que pacientemente me esperaram e me ajudaram nessa situações cômicas na entrada, mas a única coisa em que eu pensava no momento era “aonde ficam os banheiros peloamordedeus”. A situação estava crítica com aquela chuva gelada. Feitas as necessidades fisológicas iminentes, encontramos um bom lugar para assistir o show. Sentamos ali pelo chão do estádio, e até conhecemos um pessoal doidinho que era de Santa Maria (RS), com quem ficamos de conversa fiada até o show começar. Nem senti que ficamos mais umas três ou quatro horas plantados lá dentro, aguardando a abertura do Nasi. Tinha tanta gente puxando conversa lá, e tanta coisa para olhar, que isso era o de menos.
imaginava. A voz do Brian cortando aquele mar de 65mil pessoas na minha volta. Todo mundo delirou. Rock’n'roll Train estava tocando, a locomotiva gigante estava no palco, perfeita. Não dava para acreditar. Enterrei minha cara no ombro do Douglas e comecei a soluçar. Ele me deu um abraço e vi que ele estava soluçando também. O Bruno virou para trás e abriu a boca num berro que terminou em choro e nós três pulamos abraçados, sem acreditar no que estava acontecendo. Era demais. Eu nunca gritei tanto na vida, parecia uma mulherzinha doida, daquelas bem escandalosas. O coitado do paulistano que estava no meu lado ficava tapando a orelha quando eu gritava perto dele. Depois da explosão do povo, tudo ficou uma bagunça organizada.
Não senti falta de ar, não fiquei apertada, nem nada. E mesmo assim era um show de rock. O melhor de todos os tempos.telão do Morumbi. Foi meio assustador. Uma multidão reunida, os Young ao vivo na minha frente, e de repente, no lugar do Angus, a imagem que o substuiu era do público, algumas meninas bonitas, e sem mais nem menos… eu! Poxa, nunca imaginei algo assim. Foi pouco, mas foi divertido. Pensei que fui burra por não ter levantado a blusa, mas depois cheguei a conclusão de que seria desnecessário. 65mil vendo teu sutiã é meio pesado, né? Mas admiro quem se lembrou de fazer na hora e fez. Coragem hein tchê!
presente da banda para o público; o Brian saltando e se pendurando no sino no Hells Bells não teve preço, sem dúvida, muito emocionante; e a inacreditável performance do Angus, correndo e tocando, se atirando no chão… Sinceramente, aquilo me arrepiou do início ao fim.Saímos do estádio em estranha calmaria. Não teve tumulto, foi legal. A cuequinha do ac/dc que o Douglas comprou (e usou) no show estava fazendo sucesso, acho que as pessoas olhavam para gente só por isso. Depois a gente se pergunta porquê os gaúchos tem fama doidões.
Nos despedimos do Lincoln, que eu espero que tenha chegado bem. Encontrei o André lá da UFRGS depois do show – que tinha durado duas horas e meia, indo até quase meia-noite – e juntei minha comitiva com a dele (que era beeeem grande). Como não tem nada que preste perto do Morumbi, andamos para caramba até achar uma avenida que parecia ter táxis/ônibus. E um Habib’s. Nos dividimos em dois grupos, os que queriam comer e os que não queriam. Esses últimos era os mais quebrados pelo show e partiram em busca de um táxi para irem para o albergue. O meu grupo ficou comendo esfirras e encontrando um modo de fazer parar um táxi, pois eles passavam à milhão e ignoravam todo mundo. No fim, o telefone 156 – que a Renata, guria que vimos uma vez na vida, logo que chegamos em SP, me deu – foi útil. Falei no telefone onde estávamos e para onde queríamos ir. A moça nem havia acabado de me dizer o nome da linha de ônibus e informado que ela estava ativa até às 3h, e logo avistei o ônibus vindo. Todo mundo correu atrás, de última hora, e lotamos o ônibus completamente. Depois de descer no início da Paulista e caminhar até a estação Brigadeiro, chegamos no albergue felizes e cansados. Daquele jeito exausto de quem acaba de vencer uma guerra, mas mantém o sorrisinho esperto de quem está muito satisfeito consigo mesmo.















