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Entradas do Setembro 2009

woodstock revival e psicodália 2009

Setembro 29, 2009 · 1 Comentário

Quando eu era pequena e olhava aquelas imagensde gurias com flores na cabeça e cabelo comprido, aqueles caras de roupa colorida e colete, dançando na grama, e até mesmo a galera de roupa de couro e spike nos braços, pálidos,  na televisão, algo me dava uma impressão de identificação muito engraçada. O diferente me atraía de um modo que eu nunca soube explicar. Talvez porque minha mãe, apesar de ser uma das pessoas mais normais que eu conheço, ouvia muito Pink Floyd quando estava grávida. Diz ela que nunca deu bola para esse tipo de música até estar grávida de mim, e também ela nunca mais ouviu depois que eu nasci (não ouviu por vontade própria dela, porque eu sempre escutei bem alto no meu quarto).

Eu sempre fui certinha, cdf, educada, correta, discreta, e coerente. Não bebia, não fumava, não me envolvia com garotos, e ia à igreja todos os domingos. Nunca desobedecia meus pais (muito embora minha mãe discorde), e era rata de biblioteca. Por mim, enquanto tivesse meus livros, minha solidão, música boa, estava tudo bem. As pessoas confiavam em mim por causa disso, eu sempre passava um ar de responsabilidade.

Mas eu tinha um sonho secreto.

Eu queria participar de um daqueles acampamentos doidões que eu via nos filmes, onde todo mundo se amava, onde todo mundo era igual, todo mundo fazia música, sem regras, todos se respeitando. Eu também queria entender porque as pessoas usavam maconha, lsd, álcool, porque faziam tanto sexo. Eu tenho uma mania estranha, quando leio um livro eu faço questão de respirar fundo e sentir tudo aquilo que os personagens estão sentindo; me vejo na pele do ser, me ponho dentro dos sentimentos dele e provo suas sensações. Eu conseguia fazer isso quando os personagens sentiam dor, ciúme, amor, vergonha, felicidade, tristeza, possessão, raiva, etc. Mas eu não conseguia sentir quando eles se sentiam embriagados, quando sentiam tesão, etc.

Anos passaram. A adolescência passou. Eu descobri como eram aquelas sensações. De um modo progressivo e lento, ninguém mais tinha aquela imagem antiga de mim, certinha e sóbria. Nunca fui junkie, daqueles casos extremos, e eu sei que para que isso acontecesse seria muito fácil. Mas passei numa boa, e segui com a vontade de ver meu sonhozinho, de ter um mini-woodstock só para mim.

Aí então, descobri que aqui no Brasil tem um micro-woodstock sim. Vários deles. É só se ligar quando acontecem.

Participei do Psicodália 2009 no carnaval e foi uma das melhores coisas que já me aconteceram. Arrisco dizer que foram os melhores 4 dias dos últimos 2 anos. 96 horas de música, natureza, amizades inesperadas, loucura, paz, e saúde.( Sim, porque eu não espirrei nem ao menos UMA vez lá, e eu sofro de rinite crônica.) Não tem muitas palavras para descrever o que foi aquilo tudo, só sei que foi o máximo de bom.

E tem de novo. Contrariando o que planejava, de ir no carnaval de 2010, este ano acontece no ano novo 2009/2010. e tem Mutantes!

bem, não precisa falar mais muita coisa, né?

Então… eu estava aqui olhando umas fotos do Woodstock de 69, e um pouco antes eu estava lamentando ter nascido depois disso porque eu queria muito ter feito parte, mas pelas imagens eu descobri que a gente está na mesma época de 69. Explico. Nas fotos, as roupas, as expressões, os objetos, são todos os mesmos que eu vejo por aí, nas festas da faculdade, nos acampamentos, em todo o tipo de celebração à nossa diversidade juvenil cultural. Aquelas fotos poderiam ter sido tiradas em alguma edição de qualquer festival do gênero aqui no Brasil. Me senti meio sintonizada com aqueles caras que fizeram história em Bethel.

Enfim, fica minha sugestão para todos aqueles que não sabem o que fazer na noite de ano novo (e nos dias que precedem e sucedem).

[Nunca me esqueço a sensação de segurança naqueles dias que eu fiquei na chácara de São Martinho/SC; todo mundo numa paz infindável, nenhum problema,  nenhum estresse, cada um curtindo seu momento, todos seguindo o mesmo caminho para objetivos diferentes; harmonia.]

Link: www.psicodalia.mus.br

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ficções reais

Setembro 24, 2009 · Deixe um comentário

Ficção baseada em fatos reais.

Um dia eu tenho que escrever um livro de pérolas.

Amiga 1: Mas ele é gordo!

Amiga 2: Nem é nada… tá louca?

Amiga 1: Ele realmente parece um KLB.

Amiga 2: Meo, tu tá doida? Ele é lindo. Olha que jeito de ficar olhando, os olhos dele brilham… Olha os ombros, as pernas… Tem carne ali. Ele é todo quente, sei lá.  – Pausa – Ok, me diz. Eu tô pirando, né?

Amiga 1: Tu tá fudida, lamento.

Amiga 2: Eu sei, que saco. Cara, odeio amor platônico.

Amiga 1: É platônico mesmo?

Amiga 2: É. Nunca tinha visto o guri na vida antes… Mas quando ele entrou na sala meu coração disparou na hora. Desde então não sei nem agir direito quando ele tá perto.

Amiga 1: É, lamento, tu tá fudida mesmo.

Amiga 2: O que eu faço?

Amiga 1: Tu já sabe.

Amiga 2: Não sei, me diz!

Amiga 1: Tu sabe sim.

Dois dias depois…

Ele: Tu não olha as pessoas de frente.

Ela: Claro que eu olho.

Ele: Não. Tu não me encara por mais de cinco segundos.

Ela: Hm… Acho que é impressão tua.

Ele: Não sei, hein.

Ela: Bem, agora eu tenho que ir. A gente se vê. Tchau!

Ok, poderia ter sido assim. Mas não foi. Foi assim:

Ele: Tu não olha as pessoas de frente.

Ela: Claro que eu olho. Eu puxo conversa com todo mundo!

Ele: Não. Tu não me encara por mais de cinco segundos.

Ela: Ok, não encaro mesmo. Não consigo. Mas é só contigo.

Ele:

Ela:

Este é o momento certo para se estabelecer uma pequena tensão. É aquele instante em que tudo faz sentido, em que ela finalmente olha nos olhos dele e o mundo pára e começa a girar em torno deles. Ele chega perto, encosta nela, ela corresponde; o resto a gente já sabe.

Não fosse pelo fato de que os diálogos desse tipo só serem possíveis através de mensageiro instantâneo.

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sobre racismo

Setembro 8, 2009 · Deixe um comentário

Adoro ler o blog do Alex Castro porque sempre me alfineta nos lugares menos esperados da minha vidinha de classe média baixa.

Me dei conta que nunca escrevi sobre racismo, apesar de pensar muito nisso. Eu escuto coisas absurdas todos os dias sobre este assunto, mesmo daqueles que dizem “não sou racista”. Até porque, gente, se vocês perguntarem para todas as pessoas na sua volta num raio de 20m, todo mundo vai dizer que não é racista. Mas por que ainda existem negros sendo espancados do nada, por nada, em qualquer lugar?

Há um ano atrás mais ou menos, eu pensava que meu país não era algo ‘racista’. Sabe? Eu sabia que existiam resquícios, mas nunca tinha me dado conta que, no país do “deixa-pra-lá”, ninguém é santo. E que o racismo se faz muito mais forte do que eu acreditava. Sendo branca, eu nunca poderia ter uma dimensão do que é ser negro. Depois de ler Naomi Wolf e perceber  como o patriarcalismo me prejudica desde sempre, eu comecei a encontrar pontos de parâmetro para ter (somente) uma idéia do que representa você ser pré-definido por uma característica física. Dá para perceber a armadilha que se cerca em torno da pessoa? Você é negro. Isso é uma coisa que nunca poderá ser mudada. Entende? E as pessoas foram educadas a vida toda para sentir pena de você. Para dizer para os filhos que falar “negão” é feio, o certo é “moreninho”. Que antigamente fizeram uma maldade com os negros, mas depois se redimiram ao dar a eles a liberdade nas favelas. Que é bonitinho ter amigos negros para depois dizer “eu não sou racista, tenho até amigos negros e me dou super bem com eles”, enquanto troca de calçada na rua toda a vez que cruza com um cara de pele mais escura (afinal, todo negro é assaltante, né). Que agora estão fazendo um racismo docaraio ao definir cotas nas universidades (afinal, todos são iguais, inclusive os negros, só não sabíamos porque eles não apareciam no campus antes das cotas, vai ver é coincidência eles surgirem agora).

Sabe… Só pelo fato de ser mulher, eu já estou presa no fato de que as pessoas me avaliam pelo meu corpo automaticamente; se boto muita roupa, sou uma idiota que ‘não sei me valorizar’; se boto pouca roupa, sou uma piriguete que quer se aparecer. Se beijo alguém, tô facinha. Se não beijo, sou fazida. Acho que é mais ou menos assim, só que em escala maior, que os negros sentem o preconceito com eles. Nos supermercados e lojas, sempre tem um segurança à espreita; na faculdade, sempre tem alguém olhando torto (“cotista¬¬”). É engraçado que eu já ouvi muito em festa, bem no off, a frase “mas ela é preeeeta!” quando alguém comenta que uma menina chamou atenção por ser bonita (leve em conta que as festas que eu ia alguns meses atrás, tinham predominância de descendentes de europeus em seu público, naquele estilinho brit rock e indie pop feito para loiros e magros).

O problema é que nada vai mudar, e os caras continuarão a ser espancados por nada na rua, se todos nós não nos darmos conta de que racismo existe sim. Enquanto vocês continuarem fazendo cara feia quando alguém levanta o assunto, enquanto continuarem a dizer ‘isso não existe, debater isso é ser preconceituoso’ ou ‘os negros são preconceituoso consigo mesmos’  só faz o país continuar estagnado nessa mentalidade pequena e programada que, sei lá, a Globo constrói (nem vou comentar do ridículo daqueles pseudo-indianos brancos na novela né, uó aquilo).

Eu não espero ver meus filhos brincando com crianças negras para tirar fotos ou dizer “olha só que bonitinho, o mundo não é mais racista”, porque isso já acontece (obs: eu ainda não tenho filhos). Eu espero que quando meus filhos nascerem eles não saibam o significado de “cotas para negros”, que eles não estranhem um presidente negro, um médico negro, que eles não entendam porque antigamente era pejorativo chamar o cara de “preto”. Espero que eles aprendam essas coisas na escola, como parte da história, mas que não seja algo presente no dia a dia deles.

Eu sei que isso não vai acontecer a tempo dos meus filhos nascerem, mas vale a pena expressar minha indignação sobre as pessoas ou seja todo mundo que levantam uma bandeirinha para dizer que racismo não é discutível e faz parte do passado.

Passado uma pinóia.

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