Arquivo para Outubro, 2008

10
Out
08

a mecânica classica

A noite era fria, escura, como todas as noites naquele fim de inverno nas ruas em torno do moinho. A relva em um verde sombreado, escuro tal era a escuridão a que as paragens pertenciam àquela cidade. Os sinos tocavam em seus ouvidos como zumbidos do além; por fora o eco seco dos carros. Os pneus na pista eram meros objetos de raio cuja força centrípeta ninguém poderia enxergar. Porque essas eram coisas que ele não conseguia entender.
Arthur aumentou o volume do som, lembrando que seus tímpanos retumbavam no compasso da frequência que aquela música de 192k mergulhava em seu corpo. Hells Bells que em tudo combinava com o ar de mistério e calor anormal que os trópicos emanavam lá do topo de seu cinturão de latitudes e longitudes. Paralelo 30. Era onde ele estava.
Na sua cabeça passava um turbilhão de pensamentos e lembretes; tais como uma vastidão de elétrons se agitando interminantemente formando uma corrente elétrica cuja tensão não poderia ser medida pelo seu cérebro humano, desprovidos de qualquer ferramenta que os dispositivos de medição dispunham. Meras extensões do corpo que ajudavam a entender as coisas do Universo. Quem diria que ele estaria pronto para aquilo?
Só Deus saberia se as leis descritas por Newton, aquele cabecinha de vento (que definhou no ápice de seus devaneios cósmicos entre anotações sobre alquimia e esoterismo – não passava de um exêntrico), estavam corretamente armazenadas naquele mar de informações que ele pensava ser um hard disk incrustado em seus neurônios. Caminhava a meio passo, mas não muito rápido, e nem um pouco trôpego. Tentava calcular a relação de sua velocidade em referência às outras pessoas que passavam. Será que elas também divagavam sobre a origem do Universo e todos aqueles cálculos para descobrir como Einstein desenvolveu a teoria da relatividade? Depois de um tempo Arthur refletiu que a velocidade da luz era o menor de seus problemas, visto que ele mal conseguia calcular a velocidade que um carro poderia ultrapassar um caminhão em segurança, estando ambos rodando a oitenta quilometros por hora. E essa era a questão que havia o matado na primeira prova. Talvez as pessoas não o entendessem porque suas maiores preocupações fossem do tipo ‘como irei pagar o aluguel esse mês?’ ou ’será que aquela garota gosta de mim também?’. Aquelas hesitações do dia a dia, tão comuns, pareciam muito pequenas para ele.
Depois que se começa uma jornada de medições, de preocupações com forças que não se consegue ver, com manejos de instrumentos que mal se entende o funcionamento intríseco de seus circuitos… tudo vira nada. Os valores se invertem. A vida ganha mais gás, é possível encarar um relacionamento que não deu certo como algo ínfimo perto da grandeza que é o conhecimento que os engenheiros aplicam para construir rodovias, prédios, carros e até monumentos – sendo estes últimos mais obra de engenheiros capazes do que os artistas que os projetaram em suas mentes coloridas, alheias à complexidade dos centros de massa de suas artes que podem curvar e matar um traseunte, caso os engenheiros que levam a obra à cabo não planejem bem a sua disposição e as estruturas que irão a sustentar.
Bem. Eram muitos pensamentos para uma pessoa só.
Não obstante, era tão fácil largar tudo; sair daquele mundinho fantástico de maravilhas e engenhocas que só os amantes da ciência entendiam. Porém, o valor que se ganhava em troca era imenso, tal qual o valor pago por se ater à esse mundinho. Talvez fosse loucura, talvez nem tanto. o preço pago por entender como as coisas funcionam talvez suprisse a vontade de responder as perguntas cruciais de todo o ser humano: de onde viemos? para onde vamos?
Todas essas questões foram quase respondidas por pessoas. Chamamos-as de filósofos, mas na verdade – estudando mais a fundo – eram todos físicos, matemáticos, engenheiros. Talvez as pessoas normais realmente não entendessem a magnitude de um estrela e nem o porquê de estudar os fenômenos naturais; mas Arthur entendia. Por trás de tudo isso havia uma beleza sem fim. Estudar o movimento de um corpo no plano inclinado era só o início de um processo que o faria enxergar além. Olhar para dentro de si, em um átomo; e olhar para todo o Universo, em um sistema de galáxias.
Pensando assim, talvez não fosse tão difícil entender porque algumas pessoas – iluminadas, grandes – decidiam estudar Física.
A viagem de Arthur ia além. O curso que ele estudava não era apenas um curso. Era a resposta para todas as perguntas. Em que outra ciência encontrariamos tal perfeição, tal fantasia, tal realismo, tais maravilhas? E tudo junto!
Porém, a força centrípeta das rodas continuava preocupando-o. Ele sabia que se não entendesse essa parte clássica da mecânica das coisas comuns ao seu redor, ele nunca entenderia o resto. E no resto estava as respostas. Era interessante observar que era muito mais difícil calcular os trabalhos realizados pelas forças do que a relação que havia entre E = mc(c). Coisas grandes são estupendamente mais interessantes; e o interesse desperta curiosidade, que leva ao Conhecimento. Mas que interesse teríamos em calcular o movimento de partículas – que nunca existiram -, o trajeto de corpos sem graça, a força peso de um objeto? Isso eram coisas que ele procurava responder…
O mp4 mudava para uma seleção de músicas que o remetia ao lado negro da lua. Ao lado escuro de seus pensamentos também. Como poderia aquela frequência mudar o ritmo dos impulsos elétricos do seu cérebro e fazer seus músculos relaxarem? Que coisa divina. Deus estava na música, a música estava naquela frequência, e frequÊncia era algo que ele podia calcular. Logo, todos nós poderíamos entender Deus. Por que ele era a ciência para Arthur. E para todos nós.
Mas ninguém sabia além dele e um punhado de pessoas, cujos aspectos estranhos e as preferências acadêmicas as excluíam dos demais. Todo o resto não via Deus, apenas suas crenças. Arthur podia ver Deus naqueles carros cantando pneu, naquela atmosfera onde coisas invisíveis faziam seus elétrons se agitarem e provocava sensação de calor intenso, naquela mariposa voando em torno daquela lâmpada acesa, como se estivesse em órbita – e estava. Tudo em perfeita sintonia. Tudo podia ser medido, experimentado, calculado, desvendado. Tudo era fantástico.
Arthur podia. Ele estava com a faca e quiejo na mão. Um dia ele enxergaria Deus como um todo; só não sabia quando. Mas ele já via os rastros e sombras de sua passagem.
Só bastava passar naquelas malditas provas de Física 1. Tudo o que havia entre ele e Deus eram as Leis de Newton. E esse tampinha não iria destruir seu sonho.
E assim Arthur seguiu andando pela rua, repassando todas as fórmulas e todos os conceitos pra estudar o movimento das coisas mais estúpidas.
E a vida é assim.

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Caraca! A aula de Cálculo rendeu hoje, hein? XD~