Há tempos que eu escrevo uns contos soltos por aí, mas nunca publico. Coisa curta, de 5min. Tô postando este agora. Feedback? Seria legal, eu gosto.
Segue abaixo.
Domingo frio, tedioso. Eu revirava ali na cama, recém tinha acordado e o primeiro pensamento do dia havia sido ele. A cor do seus cabelos, a suavidade da sua pele, aqueles olhos verdes – que eram lanternas coloridas que piscavam feito leds em meu pensamento o dia inteiro. Levantei, acessei a internet; hoje seria ensolarado. A despeito do anúncio, fiquei em casa assistindo filmes de dor de cotovelo, que era pra eu não me sentir única. Eu tinha parceiras na solidão, mas elas só duravam até o meio do filme, porque no final as mulheres sempre encontravam um par – como se aquilo fosse uma necessidade tão comum a elas, que era natural q sua existência dependesse disso.
Me senti um lixo porque mesmo com todos aqueles pensamentos independentes e feministas, ainda lembrava dele com uma ponta de dor aguda no peito, a garganta embolotada. Vontade de algo que nunca tive antes. Certeza de que era bom, mas a eterna dúvida de que se valia a pena ou não. Fiquei com a sensação de que nunca saberia. Era seguro continuar sem resposta, porque o ‘não’ eu já tinha, e poderia seguir com o que eu já tinha. Mas e se eu obtivesse um ’sim’? E se fosse bom? Em contrapartida, eu sabia que todas as experiencias antigas haviam dado errado. Essa talvez não fosse diferente. Mas e se fosse? Pelo menos por um tempo? Bom, quanto mais alto eu sonhasse, pior seria minha queda quando descobrisse que ele não valia a pena.
Tarde da noite, depois de uma garrafa de vinho e das dispensas dos convites dos amigos; internet. Todos sabemos que msn em madrugada solitária e levemente embriagada é muito perigoso. Mas encarei. Afinal, as únicas pessoas q poderiam estar online numa sexta-feira a noite com certeza estavam numa situação igual (ou pior que) a minha.
Logo de cara uma das minhas amigas havia deixado uma mensagem enquanto eu estava offline. Ela, naturalmente, já havia saído de casa e não estava mais presente na frente de seu computador, mas a mensagem que ela mandou estava ali me esperando.
Um link.
Cliquei no textinho já prevendo onde eu iria parar e respirei fundo antes de ler. Twitter.
Sim, era o twitter dele. Uma das coisas da qual eu mais fugira nos últimos dias. Eu ainda acessava o blog, o fotolog… Lia sobre as opiniões dele, via suas fotos. Mas me recusava a dar uma espiada na parte mais particular de sua vida exposta ao extremo.
Lá, naquela simples pagina, estava o relato completo de seus passos no dia. Onde ele foi, quem ele viu, o que ele fez, o que ele achou de tal noticia… tudo tudo. E, na última entrada da página, havia uma informação que eu não queria ler. Mas já era tarde demais.
Ele estava lá. Lá no lugar onde meus amigos me chamaram pra ir e eu neguei, querendo sofrer, sozinha. Ele estava lá. Se divertindo e interagindo com todos e todas. Sim, todas. Elas tinham a chance de ter uma oportunidade com ele. Uma oportunidade que eu não tinha. Que eu não teria. E não tinha coragem de ter.
Desliguei o computador e fui pra cama. Da cama eu fui para o sofá. Abracei meu cachorro e tentei dormir. Mas não dava.
Repassei toda ‘minha história com ele’ na cabeça, analisando fato por fato. Eu encontrei seu blog por acaso, li suas crônicas e me identifiquei. Vi suas fotos, e me apaixonei. Tentei algumas aproximações, comentando, mandando email, mas ele sempre encontrava meios de me cortar. Notei que ele era muito popular, músico e escritor. Sem contar que parecia um modelo. Olhos verdes, boca carnuda, olhar ingênuo, avassalador. Ombros bem desenhados, peito rígido, pele branca, cabelos cor de ouro velho… O desenho do seu corpo era um risco que eu corria só de olhar. A linha da coluna nua em uma das fotos me fazia estremecer. O pescoço de leite dava vontade de encher de mordidas, marcar, arranhar toda a nuca e as paletas. Longilíneo, sexy, displicente. E arrogante.
Sentei no sofá, liguei a tv. A programação não era nem um pouco entusiasmante, mas permaneci sentada, alienada, durante meia hora.
Olhei para a lua lá fora. Noite clara. Um carro passou buzinando e uma gurizada gritando a letra de uma música que eu adorava, a plenos pulmões. Pois ora, era pra eu estar fazendo este tipo de coisa agora.
Por que eu não estava lá fora?…
A vontade de ir atrás dele tomou conta do meu coração. Eu não podia viver com a dúvida pairando sobre a minha cabeça. Mesmo que eu estivesse parecendo uma psicótica aos meus próprios olhos, agüentar aquela omissão por tanto tempo não faria bem pra minha auto-estima.
Troquei de roupa, tirei as pantufas. Joguei um casaco qualquer em cima da calça jeans surrada e da camisa branca de botões coloridos. Não estava com paciência para me vestir, e já era meio tarde. Eu poderia não encontra-lo lá. Fui de cara limpa – em outro dia eu não conseguiria sair de casa sem um rímel, ainda mais quando eu estava saindo com propósitos daquela natureza. Mas azar. Eu era uma pessoa calma, e estava sentido a sensação de impulso emocional e arrasador pela primeira vez na vida.
Joguei a bolsa dentro do carro e girei a chave impaciente. Provavelmente eu não beberia o suficiente a ponto de não poder conduzir sozinha meu carro sem representar um perigo de vida para mim mesma e para os outros.
Cheguei na rua onde todos estavam. Aparentemente a festa havia acabado. As pessoas estavam na rua, já tinham saído do bar, e tomavam vinho na sarjeta. Rindo, brincando. Alguns tocavam violão, outros entravam nos carros afim de curtir outra festa (ainda dava tempo).
A rua era uma lomba e eu a subia, devagarzinho, procurando onde estacionar, meus amigos e, principalmente, ele.
Não estava encontrando ninguém. Eu estava com lentes, não havia desculpa para não enxergar. Então eles realmente não pareciam estar por ali mesmo.
Até que eu o vi.
Foi estranho. Ele estava andando de bicicleta. De noite, na rua. Na saída da festa. Mas… como assim? Bem, eu sempre me apaixonava pelos caras mais loucos, mas não esperava que esse fosse tanto. De repente não me senti mais tão estranha por estar agindo tão obsessivamente. Havia gente mais louca que eu.
Ele era o centro das atenções. Todo mundo olhava pra ele, apontava pra ele, ria pra ele. Sim, riam pra ele, e não dele. Todas as meninas estavam embasbacadas com aquele modelo de terno e gravata, andando de bicicleta ladeira acima, se exibindo, fazendo palhaçadas. Rindo. Como ele era lindo rindo.
Eu fiquei ali no carro, andando a 10km/h, pensando em como eu chamaria atenção dele no meio de todas aquelas gurias lindas e bem arrumadas. Fiquei por ali, meio passiva, conduzindo o carro de forma apática. Ora olhando para ele – bem lá na frente -, ora olhando pra minha imagem no espelho retrovisor. O que eu tinha de diferente das outras? A resposta estava na minha testa. Nada. Cabelos escuros, olhos escuros, pele clara. O tipinho mais comum encontrado nestas paragens.
Ai, como a vida é cruel.
De repente, pá. Levei um susto. Pisei no freio na hora. Eu havia batido em algo, ou algo havia batido em mim – no meio do devaneio foi difícil distinguir. Desliguei o motor e olhei em volta. A rua inteira havia parado para assistir; agora toda a atenção estava voltada para mim e meu humilde corsa branco. Mas nada me preocupava mais do que a figura que se encontrava parada, com o olhar apavorado, na frente do carro.
– Tu detonou a bike! Tu é louca, guria?
O grito de fúria era, nada mais nada menos, do que dele. Todos olhavam e balançavam a cabeça na minha direção, em tom de desaprovação. Murmúrios de ’só podia ser mulher’ e ‘essa gente bêbada dirigindo’ ecoavam baixinho na volta.
Dei ré, encostei o carro e desci. Não pude deixar de pensar q essa era a pior maneira de encará-lo. Meu deus, como eu havia feito aquilo? Como eu conseguira desviar minha atenção a tal ponto que poderia ter matado alguem?
Por sorte era só uma bicicleta grande que eu via amassada na faixa, recém saída debaixo das minhas cruéis rodas dianteiras.
Dei dois passos na direção dele, que juntava os restos retorcidos da bicicleta.
– Cara, eu… eu… – hesitei um instante que parecia uma eternidade, encarando o corpo dele. De repente ele virou para mim. Aqueles olhos grandes, que antes estavam arregalados, agora estavam calmos e me olhavam de maneira curiosa.
– Hm… tu não tá bêbada. Achei que fosse uma guria descornada, que estivesse indo embora de porre. – Olhou pra mim de cima abaixo – Por que tu fez isso?
– Eu.. não sei. Tu tá bem? Não te vi, desculpa.
– Não me viu?
– É, até que vi, mas de canto. Depois desviei a atenção pra outra coisa. Desculpa mesmo. Te dou uma bicicleta nova. Mas tu tá legal?
Eu estava profundamente constrangida, transtornada, e envergonhada. Minhas mãos tremiam. Eu vi que alguns amigos dele vieram pra cima, pra me xingar ou alguma coisa assim, mas ele fez um gesto com a mão e eles recuaram. Aos poucos o pessoal da rua voltou a fazer suas coisas.
Ele ficou me olhando.
– Entra aí, vou te levar pra casa. Tu não tá bem.
– Hey, claro eu to bem – Que historia era aquela de me levar para casa? – Eu posso levar tua bicicleta pra tua casa, depois pego teu telefone e te dou uma nova. Desculpa por ter estragado tudo. Eu fiquei meio away e…
– Como tu fica away enquanto tá dirigindo numa rua cheia de gente louca correndo de um lado pro outro?’
Fiquei vermelha.
– Vamo lá que eu te levo. Eu não to bêbado.
E com um jeito extremamente superior, ele abriu a porta do passageiro pra mim e tirou as chaves do carro da minha mão. Fiquei parada ali.
– E a bicicleta?’
– Ela pode ficar aí. Ninguém vai querer roubar ela agora.
Entrei e sentei no banco do carona, no meu carro. Ele entrou, botou o cinto e girou a chave.
Era informação demais pra minha cabeça. E eu ainda estava um pouco zonza do vinho.
– Onde tu quer ir?… onde é tua casa?
Fiquei muda. Estava em choque pela sucessão de acontecimentos.
De repente respirei fundo vendo a impaciência dele em aguardar minha resposta, de motor ligado. Então eu ri.
– Sei lá. Pode me levar pra beber em algum lugar.
– Gostei dessa resposta – ele riu também.
Então ele foi dirigindo e me olhou pelo espelho, me encarando.
– Quê foi?
– Hm. Nada. Na verdade… eu sei quem tu é.
Gelei.
– Sim, eu sei. Eu vejo teu ip nos visitantes do meu blog todos os dias. Eu li teus comentários. Eu também li o teu blog e achei o máximo. Mas nunca juntei coragem suficiente pra falar contigo…
Fiquei muda.
– Não vai falar nada?…
Continuei muda.
– Ok, fiz besteira. Eu deveria ter guardado isso pra mim. Agora tu vai achar q eu sou louco.
Eu dei um risinho e respondi:
– Tu anda de bicicleta de noite, na frente de uma festa, eu te atropelo e detono essa bicicleta… eu acho q nós dois somos meio doidos.
Ele sorriu. O sorriso mais lindo que eu já vi na vida.
– Vamos tomar uma cerveja?
– Vamos.
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Alguém gostaria de ver uma continuação?